Olha, eu estou te escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado
hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer
tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por
vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me
dizem que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo o meu
processo mental (processo mental: é exatamente assim
que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e
que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não queria que
fosse assim. Eu queria que tudo fosse muito mais limpo e muito mais
claro, mas eles não me deixam, você não me deixa
Eu te amei
muito. Nunca disse, como você também não disse, mas acho que você soube.
Pena que as grandes e as cucas confusas não saibam amar. Pena também
que a gente se envergonhe de dizer, a gente não devia ter vergonha do
que é bonito. Penso sempre que um dia a gente vai se encontrar de novo, e
que então tudo vai ser mais claro, que não vai mais haver medo nem
coisas falsas. Há uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que
precisaria saber para compreender todas as vezes que fugi de você e
voltei e tornei a fugir. São coisas difíceis de serem contadas, mais
difíceis talvez de serem compreendidas — se um dia a gente se encontrar
de novo, em amor, eu direi delas, caso contrário não será preciso. Essas
coisas não pedem resposta nem ressonância alguma em você: eu só queria
que você soubesse do muito amor e ternura que eu tinha — e tenho — pra
você. Acho que é bom a gente saber que existe desse jeito em alguém,
como você existe em mim.
Dizem que a gente tem o que precisa.
Não o que a gente quer. Tudo bem. Eu não preciso de muito. Eu não quero
muito. Eu quero mais. Mais paz. Mais saúde.Mais dinheiro. Mais poesia.
Mais verdade. Mais harmonia. Mais noites bem dormidas. Mais noites em
claro. Mais eu. Mais você. Mais sorrisos, beijos e aquela rima grudada
na boca. Eu quero nós. Mais nós. Grudados. Enrolados. Amarrados. Jogados
no tapete da sala. Nós que não atam nem desatam. Eu quero pouco e quero
mais. Quero você. Quero eu. Quero domingos de manhã. Quero cama
desarrumada, lençol, café e travesseiro. Quero seu beijo. Quero seu
cheiro. Quero aquele olhar que não cansa, o desejo que escorre pela boca
e o minuto no segundo seguinte: nada é muito quando é demais
Não sei se em algum momento cheguei a ver você completamente como outra
pessoa, ou, o tempo todo, como uma possibilidade de resolver minha
carência.
Quem sabe. Talvez tudo, talvez nada.
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